A classe média, segundo John Updike

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Para a edição de julho do jornal Rascunho, escrevi um ensaio sobre a obra de John Updike, um dos narradores que conseguiu capturar com mais fidelidade o significado da classe média — notem, portanto, que a nota de corte para a existência desse grupo social tem ver com mais fatores do que somente o indicador econômico. Em outras palavras, é preciso de um sentido e, claro, de uma narrativa para estabelecer a influência desse fatia considerável junto a uma sociedade como a brasileira.

No texto original, me esqueci de uma epígrafe que valeria a pena ser citada aqui: Noel Gay e Ralph Buttler escreveram “Run Rabbit Run”, uma canção popular que teria ampla menção no imaginário popular, servindo de referência, também, para o Pink Floyd, na faixa “Breathe”, do álbum The Dark Side of The Moon. A propósito, foi essa música da banda inglesa que permite uma associação para com a história do personagem de Updike.

O trecho ao qual eu me refiro é o seguinte: Run, rabbit run/ Dig that hole/ forget the sun/ And when at last the work is done/ Don’t sit down its time to dig another one (Corra, Coelho, corra/ Cave aquele buraco e esqueça o sol/ E quando finalmente o trabalho terminar/ Não se sente, é hora de cavar outro)

Enfim, esse diálogo com essa canção torna a leitura ainda mais interessante.

Leia o texto aqui

Kurt Vonnegut: contra a guerra e além da militância

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Para a edição de junho do Rascunho, escrevi um ensaio sobre a obra do escritor norte-americano Kurt Vonnegut. Doa vários livros que ele escreveu, existem, pelo menos, duas obras-primas: Matadouro 5 Café da Manhã com os Campeões.

A seguir, um trecho do artigo:

 

Vonnegut pode ser entendido como o louco da casa, aquele de quem todas as pessoas esperavam o inesperado. Desse modo, ao tratar da guerra ele não propõe uma abordagem mais direta ou mesmo sofisticada; em vez disso, se esquiva para um riso que chama a atenção pelo absurdo e pela forma estridente com a qual vai demolindo as nossas frágeis certezas absolutas. Talvez essa seja a razão, aliás, para que o escritor norte-americano não seja mencionado na análise de Sebald — a demasiada ironia pode facilmente ser lida como tom de deboche descompromissado. De qualquer modo, Vonnegut fala da guerra e de suas consequências de forma bastante sensível.

 

Leia o ensaio completo aqui.

 

Costa-Gravas contra o Capital

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Gad Elmesh, o ator que vive o protagonista de “O Capital”

No ano passado, poucos devem se lembrar agora, o mais recente filme do cineasta Constantin Costa-Gravas estreou. “O Capital” é um ataque aos bancos, à lógica da especulação e, por fim, à maneira agressiva com a qual os diretores das grandes empresas lidam com os negócios.

Assisti ao filme quase no fim do ano. Com sofreguidão, escrevi um texto para publicar numa revista, que, no fim das contas, acabou deixando o artigo de lado. Eu mesmo havia desistido do texto, atolado que estava com outras coisas. Mas agora, com a explosão do livro de Thomas Piketty, “O Capital no Século XXI”, lembrei-me do tour de force que havia empreendido para escrever o ensaio.

Abaixo, uma leitura sobre aquele filme:

Em “O Capital”, o novo filme de Costa-Gravas, existe uma cena de notável delicadeza, digna de um dos melhores cineastas políticos de sua geração. A sequência traz o protagonista, Marc Tourneil, em diálogo com uma jovem executiva, Maud, que decidiu pedir demissão da empresa para a qual exercia a função de gerente por não concordar com as práticas predatórias daquele modelo de negócios. Em síntese, Maud felicita Tourneil por sua decisão de enfrentar o sistema tal como este se estabelecia, mas, para a surpresa da jovem idealista, Tourneil consente, conformado e sem entusiasmo, que o mundo dos negócios não passa de um jogo, sugerindo, assim, que é inútil desafiar o Capital (há alguns anos, a propósito, o pensador Slavoj Zizek assinalou que o capitalismo é indestrutível). Em seguida, Tourneil diz a Maud que ela ainda é muito jovem, enquanto ela, desiludida, diz a ele:: “E você envelheceu rápido demais”. O enquadramento deixa de acompanhar o rosto dos personagens. Agora, do alto, Maud sai à esquerda e Tourneil vai para a direta.

No filme, Costa-Gravas concebe uma crítica contundente ao sistema econômico que, para os seus críticos, levou o mundo à breca desde 2008. Com efeito, “O Capital” aponta a metralhadora contra o que há de mais voraz nesse sistema, de acordo com o olhar do cineasta: o mercado financeiro, comandado em escala global por bancos que não conhecem fronteiras: Miami, Tóquio, Paris, Londres. A história recente da globalização, nesse sentido, se confunde com a trajetória vertiginosa de um capitalismo que desconhece os territórios ou mesmo defende a participação do Estado. Ironia das ironias: num filme político por natureza, não há margem para a os representantes do governo, ainda que as grandes decisões, que vão impactar a sociedade estejam sendo tomadas ali, muitas vezes à margem de qualquer decisão de atenção popular. Nesse aspecto, qualquer manifestação que não seja do capital financeiro não chega a incomodar aqueles que são os verdadeiros donos do poder.

Como se trata de um filme sobre o capitalismo (e, no limite, a busca por mais poder), a obra traz no seu epicentro um personagem que é modelo exemplar do comportamento das lideranças desse sistema na contemporaneidade. Não existem sentimentos, não existem hesitações, não existem limites para o cumprimento das metas estabelecidas. Se, no caso das narrativas tradicionais, há sempre um entrave moral no meio do caminho (forçando o herói a fazer a coisa certa), para o executivo do capitalismo dos nossos dias nem mesmo o céu é o limite. Para tanto, ele pode trair seus aliados, constranger subalternos e perseguir quem está à sua volta. O lado político está, ainda que indiretamente, fundamentada na prática de Nicolau Maquiavel, em “O Príncipe”.

Não é a primeira vez que Costa-Gravas se dedica ao universo do mundo corporativo. Em “O Corte”, filme de 2005, o diretor aborda sobre a competição por uma vaga de alto escalão nas empresas pode chegar aos extremos. No entanto, vemos diferenças: enquanto naquele filme havia um tom de denúncia para o comportamento de quem buscava por um emprego acima da média, em “O Capital” o tom é de desengano para uma situação que permanece sem perspectiva de mudança.  E é aqui que as palavras de Zizek ganham eco: o capitalismo é indestrutível.

A crítica de um cineasta como Costa-Gravas encontra o seu inverso nos escritos de Ayn Rand. Mais recentemente, comprei “Capitalism: the unknown ideal”, uma seleta de artigos da autora da autora com Nathaniel Branden, Alan Greespan e Robert Hessen. Embora menos celebrado que a ficção de Ayn Rand, a coletânea de ensaios é um guia bem elaborado sobre a natureza do capitalismo. Disse que se trata de um guia? Equivoco-me: trata-se, na verdade, de uma apologia ao capitalismo. E isso fica evidente nos três primeiros ensaios da autora sobre o tema. Sem meias palavras, ela sustenta o eixo fundamental do sistema atacado por Costa-Gravas, afirmando que o capitalismo é um sistema social baseado no reconhecimento dos direitos individuais, incluindo direitos de propriedade, dentro do qual toda propriedade é controlada pela iniciativa privada.

Qual é a surpresa? Em sua defesa do capitalismo, Ayn Rand não considera os direitos individuais distantes do que chama de pensamento calcado na razão. Nesse sentido, para a escritora, os direitos do homem jamais foram compreendidos pelos pensadores europeus, que, por sua vez, sustentavam uma posição teórica sobre o tema que os aproximava de uma espécie de natureza tribal, longe, portanto, do direito de posse dos indivíduos. Em certa medida, a autora antecipa e mesmo observa porque o espírito voraz do capitalismo, hoje essencialmente associado ao partido republicano nos Estados Unidos, sempre foi e, de certo modo, sempre será alvo de crítica por parte dos pensadores europeus. No Velho Mundo, existe a percepção de que o papel do Estado ainda deve ser determinante, o que não faz parte da mentalidade de um capitalista voraz.

O curioso, no entanto, é que a intelligentsia, hoje em dia, sucumbiu a esse discurso de crítica permanente ao capitalismo, como se o sistema fosse efetivamente a raiz de todos os males. Em países como o Brasil, por exemplo, essa disputa alcança as raias da paranoia, porque ambos os partidos que estiveram no poder nos últimos anos, embora tenham feito o jogo do mercado e da globalização, se antecipam em dizer que não é bem assim, não: de um lado, o PSDB corre para negar, sempre quando pode, que só privatizou porque era absolutamente necessário – e, como diz o virtual candidato a presidência do partido em 2014, todos aprovam isso porque gostam de usar a telefonia móvel. Do lado do PT, há toda uma ginástica para mostrar que o governo fez crescer a distribuição de renda – deixando de dizer, estrategicamente, que essa distribuição foi feita para promover o acesso dessa classe média emergente aos bens de consumo. Desnecessário dizer que os dois partidos representam, por aqui, o mesmo lado: forças de centro-esquerda que alcançaram o poder, defensores de um modelo de estado de bem-estar social, num estilo de capitalismo europeu que pretende forjar um tecido social para os outsiders.

No filme de Costa-Gravas, a crítica principal se dá porque modelo de capitalismo, “estadunidense”, como gostam de dizer, está ganhando mais espaço com a crise econômica. Afinal, o fato de a Europa se recuperar pouco se dá porque o modelo de desenvolvimento não pode pagar a conta, numa lógica que remete à tempestade perfeita: menos mão de obra para custear o envelhecimento da população europeia. Não por acaso, a certa altura do filme, o protagonista principal sugere que o problema está no excesso de velhos que existem naquele país – no caso, a França.

O cerne da questão, no entanto, reside no fato de que o filme de Costa-Gravas – talvez exatamente porque ele seja herdeiro desse pensamento europeu, que, por natureza, tem má vontade para com o capitalismo – não consegue perceber as virtudes do sistema defendido por Ayn Rand. O cineasta vê o sistema como uma forma perversa de dominação, e o cinismo de seu protagonista, a maneira quase autista como ele lida com a família, sem se preocupar com a mulher ou com o filho, ou, ainda, seu interesse apenas em satisfazer seus desejos, como um sujeito egoísta – e esse egoísmo é a raiz para todos os males.

Se a crítica de Costa-Gravas é válida – e é desnecessário dizer que esta avaliação encontra ressonância na maior parte da intelligentsia hoje em dia, de leigos e colunistas de jornal a especialistas e doutores em economia –, existe a perda de perspectiva do espírito natural que guia o indivíduo. Em outras palavras, na contramão de pensar pelo bem comum, uma abstração forjada pelo consenso subjetivo de uma maioria ilustrada e esclarecida que toma conta do poder, o capitalismo oferece ao indivíduo a experiência única da liberdade, com suas consequências atingindo aquele que optar pelo caminho de saciar seus desejos particulares ou satisfazer suas necessidades básicas. Nesse sentido, não há espaço para que outro alguém seja responsabilizado pelas suas decisões de compra.

“O Capital”, de Costa-Gravas, não dá conta dessa nuance exatamente porque decide nomear os vilões do “sistema”: de acordo com o filme, são as instituições financeiras que sequestram o “bem comum”; são elas que não permitem o público gozar das benesses da vida em sociedade, porque estas só pensam no lucro – e aqui o lucro é visto como algo nocivo na contemporaneidade, porque deteriora os afetos, destrói os laços e compromete o futuro. Como manifesto político, o filme consegue atender às expectativas da crítica ao capital, mas, curiosamente, não dá conta de oferecer alternativa a esse modelo. Magaret Tatcher, na década de 1980, afirmaria: “não há alternativa”. O que resta, então? No caso de Costa-Gravas, a saída de que “tudo não passa de um jogo”, concordando, nas entrelinhas, de que talvez não haja nada melhor do que observar os acontecimentos com resignação e uma ponta de amargura – ainda que isso seja em virtude de incompreensão.

 

Melville: nas profundezas da condição humana

Herman Melville

Para a edição de abril do Rascunho, escrevi sobre Herman Melville, o autor de Moby Dick, entre outros. É a segunda vez que escrevo a respeito do escritor norte-americano, cuja obra é não apenas variada, como também bastante incisiva no tocante à dimensão existencial de sua abordagem.

Em outras palavras, ainda que Melville seja considerado um autor de romances de aventura, sua força estava no descortinar da condição humana. Abaixo, um fragmento do texto:

Moby Dick sempre será identificado como a história de um homem, o capitão Ahab, obcecado por sua baleia branca. Muito antes de a ciência estabelecer um estudo sofisticado sobre o tema (a obsessão), a narrativa literária de Melville já havia dado o recado sobre os seus perigos e seus efeitos. Ishmael é o narrador e, com ele, o leitor descobre um universo apartado da realidade comum não apenas porque existe um novo contexto geográfico em questão (a justaposição terra/mar), mas, principalmente, porque são desenvolvidos novos códigos de conduta, forjados a partir de novas reações e de um comportamento totalmente diferente. A estrutura da história é interessante, nesse sentido, porque, sempre junto ao narrador, somos apresentados às especificidades daquela realidade, que possui outro significado dentro do navio — com outras palavras, esta mesma mensagem também é trabalhada em Billy Budd, quando o narrador sugere que existem determinados comportamentos e gestos que só são possíveis no mar.

O link para o texto completo está aqui.

 

Camus, pensador do absurdo

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Para a edição de novembro do jornal Rascunho, escrevi um ensaio sobre a obra de Albert Camus, o autor de O Estrangeiro. Camus completaria 100 anos agora em novembro, e sua obra é bastante celebrada não somente pela ficção, mas, também, pelos ensaios, como O Homem RevoltadoO Mito de Sísifo O Avesso e o Direito.

Abaixo, um trecho do texto:

Se a trajetória intelectual da obra de Albert Camus percorreu a trilha da ficção e da filosofia em torno das questões concernentes à condição humana e ao absurdo, não há dúvida de que seu país de origem também é relevante para compreender algumas das inquietações do autor. Em um texto publicado na Smithsonian Magazine, o repórter Joshua Hammer reconstrói a narrativa de Camus na Argélia e apresenta uma informação no mínimo curiosa sobre o autor e seu lugar de nascimento. Camus ainda é um estrangeiro em seu próprio país. Isso porque, mesmo tendo sido reconhecido como um grande homem de letras no plano internacional, para consumo doméstico suas idéias são consideradas controversas no tocante à condição política da Argélia. Embora tenha utilizado o país como cenário para suas obras, Camus acreditava, até o fim de sua vida, que a Argélia deveria permanecer como parte da França, uma posição corajosa e ao mesmo tempo contracorrente para a visão de mundo contemporânea. O escritor, informa Hammer, é percebido em sua terra natal como um colonialista, a ponto de, no centenário do seu nascimento, não existir alarde para comemoração oficial.

Clique aqui para ler o ensaio completo

Diário de um adolescente

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A maçã envenenada, a obra mais recente do escritor Michel Laub, tem tudo para ser o livro do ano, conforme as leituras e análises críticas elaboradas pela intelligentsia que dá as cartas na cena literária no Brasil. E a verdade é que motivos para tanto não faltam: isso porque o escritor é um dos expoentes de sua geração, dono de um estilo e voz originais num contexto em que aspirantes a artistas mal conseguem fazer com que a condessa atravesse a sala de estar, para utilizar uma ilustração corriqueira de João Ubaldo Ribeiro e de Cristóvão Tezza, este último em seu belo ensaio O espírito da prosa, publicado em 2012. Michel Laub, respondendo a quem interessar possa, sabe, sim, escrever e sua trajetória como autor é significativa disso. São cinco ou seis romances, além da participação, merecidamente elogiada, na coletânea da Revista Granta, com os melhores escritores da literatura brasileira com menos de 40 anos.

Em sua conhecida apreciação sobre o gênero conto, o escritor argentino Julio Cortazar foi cirúrgico: um conto deve conquistar o leitor logo no início, e por nocaute, sugeriu o autor de O Jogo da Amarelinha. Já Ricardo Piglia, também argentino, escreveu no livro Formas Breves que um conto sempre traz duas histórias, que, a certa altura, se cruzam e/ou se envolvem. Michel Laub em A maçã envenenada parece obedecer com alta fidelidade as lições desses mestres. Sim, seu início é poderoso como uma abertura de um show de rock, posto que traz à baila a trajetória errante e sedutora de Kurt Cobain, um dos grandes ícones da cultura pop da década de 1990. É até mesmo possível estabelecer uma conexão entre a MTV, que ora acabou de encerrar suas atividades como ficou mais conhecida, e a ascensão e queda de bandas como o Nirvana. De forma bastante elaborada, Laub se aproveita desse gancho para desenvolver sua abertura, obedecendo um esquema tão correto quanto bem escrito.

Ao mesmo tempo em que desenvolve a história do significado daquele show (e aqui o narrador compartilha com a multidão de órfãos daquela geração as recordações daquela banda, temperado aqui com o sabor adocicado da nostalgia), eis que aparece Valéria na história. Vetor importante do livro, é a mulher que desencadeia o problema que deverá ser resolvido na história. Cherchez la femme. Descobrimos que o narrador manteve um relacionamento com Valéria e, mais do que isso, aprendemos como foi o desenrolar dessa história. Era um romance adolescente cuja trilha sonora era das bandas de rock, e as canções do Nirvana pontuavam o relacionamento. Numa outra ponta desse relacionamento, existe a figura do melhor amigo, o Unha, que está sempre por perto.

A estrutura da narrativa permite ao leitor uma empatia com o modo como a história é narrada. Isso não significa que a história tenha um tom cômico ou mesmo engraçado, a não ser que…

A não ser que o leitor interpretar uma dose cavalar de afetação, essa prima pobre da ironia, como humor. Isso porque, embora seja um relato em tom menor, talvez a principal marca registrada de A Maçã Envenenada seja esse tom blasé, que, aliás, tem funcionado como uma espécie de denominador comum em certa produção romanesca da contemporaneidade. Sobre isso, há algumas semanas, um artigo assinado por Luís Antônio Giron, jornalista e editor da revista Época, provocou reação agressiva no mundo literário. Escreveu Giron (sem mencionar qualquer escritor nominalmente) que a literatura brasileira, além de não produzir um grande romance há muito tempo, se preocupava tão somente com o próprio umbigo dos seus autores, num círculo vicioso que não beneficiava a literatura, tampouco o romance brasileiro, haja vista que nenhuma grande discussão sobre a alma humana é abordada nas nos romances da literatura brasileira contemporânea.

No caso de A Maçã Envenenada, existe, sim, essa preocupação com a alma humana, e tal discussão está patente já nas primeiras linhas do livro. Ao falar de Kurt Cobain, o narrador trata da questão do suicídio, algo que se torna um eixo fundamental na obra, ao mesmo tempo em que resgata para o leitor um acontecimento trágico da década de 1990: o massacre étnico ocorrido em Ruanda, onde milhares foram dizimados. Como numa dessas provas de superação, há uma sobrevivente daquele conflito civil que anos mais tarde concederá um depoimento ao protagonista, que, a partir daí, embaralha os relatos a fim de alcançar um traço comum nas histórias.

Graças ao entrelaçamento dessas três histórias, o romance alcança um suposto contorno existencial: ao recordar dos acontecimentos dos anos 1990 (o relacionamento com Valéria, a morte de Cobain e a resistência de Immaculé Ibilagiza), o protagonista se vê na posição de um dilema: se foge à sua responsabilidade ou se vai encontrar a namorada para assistir ao show de uma banda de rock. Para o narrador, essa decisão efetivamente mudaria todos os acontecimentos à frente, porque a sequência dos eventos se mostrou a um só tempo traumática e inevitável. E o desfecho, tal como foi elaborado, mostra que o protagonista enfrentava um momento especial.

Todavia, vale a pena destacar que esse dilema moral é falso. O motivo para tanto está na voz que anuncia a história: o narrador toma a sua própria percepção dos acontecimentos como algo fundamental para o desdobramento da vida dos outros. Nesse sentido, é como se o protagonista efetivamente pudesse interferir no destino da namorada ao mesmo tempo em que pudesse efetivamente entender o que realmente pensava a sobrevivente de Ruanda além de saber o por que do suicídio de Kurt Cobain. E isso não ocorre porque o narrador se assume tão senhor de si e ao mesmo tempo tão afetado que, no fim do dia, essa digressão individual assume um caráter de pura reclamação de um adolescente mal-resolvido, que, depois de muito tempo, ainda parece não ter exorcizado as frustrações dos vinte e poucos anos.

E, curiosamente, esse é o exato motivo pelo qual o livro tem tudo para ser o romance do ano. Esse tom de diário de adolescente encontra eco na maneira como os jovens atualmente enfrentam seus problemas: buscam resolver os fantasmas do passado com justificativas e evasivas sobre sua conduta no presente. Como são incapazes de seguir em adiante, amargam a culpa de não terem sequer a audácia necessária para concluir os atos de desespero.

Na história da literatura, o suicídio já foi tema de elaborações romanescas e filosóficas emblemáticas. Em A Maçã Envenenada, um romance escrito de forma bastante eficaz e sofisticada, essa questão é superada pelas diatribes mal-resolvidas de um personagem fraco para enfrentar questões fortes. Em outras palavras, até para o arrependimento é necessária determinada dose de ousadia – algo que falta ao livro de Michel Laub.

Textos de agosto

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Últimos textos publicados neste mês de agosto: Uma resenha de “Malcom X: uma vida de reinvenções“, a biografia do ativista norte-americano assinada por Manning Marable, publicado no Amálgama. No Rascunho, um texto sobre a coletânea de reportagens de Ivan Marsiglia, “A poeira dos outros”. E no Criticon, um artigo sobre o permanente impacto da obra de F.S. Fitzgerald, “O Grande Gatsby”.  Já para Cândido, o jornal da Biblioteca Pública do Paraná, escrevi uma reportagem sobre a relação da literatura brasileira e a identidade nacional

Aproveitem a leitura!

A ordem política, segundo Francis Fukuyama

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Pensador liberal dos mais originais, Francis Fukuyama escreveu um ensaio polêmico nos estertores da década de 1980: “O fim da história?”. Até hoje, ele é lembrado por aquele texto, mesmo entre aqueles que não leram qualquer coisa a respeito.

Mais de vinte anos depois, Fukuyama ainda consegue escrever com qualidade sobre a política, desta vez olhando sobre a formação das instituições que sustentam o Estado. Em “As Origens da Ordem Política”, o autor propõe uma reflexão original de um tema tão complexo quanto caudaloso. Escrevi a respeito do livro para o Amálgama. Eis um fragmento:

(…) se nas primeiras páginas Fukuyama dedica um espaço considerável para elaborar uma análise do sistema internacional contemporâneo, logo adiante o autor propõe uma espécie de revisão da ordem política mundial antes mesmo da ideia de Estado-Nação ser a pedra de toque da política internacional. Com isso, é eficaz ao explicar de que maneira os principais atores do sistema mundial se desenvolveram, observando, de quebra, a sua constituição do ponto de vista histórico. É assim que se compreende, por exemplo, os meandros do Império Chines à época da dinastia Han, conforme se observa nas palavras do autor: “Qin Shi Huangdi estendeu as instituições de seu Estado natal para toda a China, criando assim não apenas um Estado, mas aquela que viria a se tornar, sob seus sucessores da dinastia Han, uma cultura de elite chinesa unificada”.

Leia a resenha completo aqui.

Wodehouse

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P.G. Wodehouse

Escrevi, para a edição de junho do Rascunho, um longo ensaio sobre a obra de P.G. Wodehouse, autor inglês cujo humor era ao mesmo tempo sofisticado e ingênuo (o que explica, de certa maneira, a forma como ele decidiu enfrentar um dos momentos decisivos da história do século XX).

Abaixo, um trecho do texto:

Nas décadas de 1920 e de 1930, Wodehouse já obtinha resultado considerável de sua atuação como escritor. À época, no entanto, ele foi um dos primeiros a ter de pagar ao fisco imposto pelo quanto recebia tanto ao governo norte-americano quanto ao inglês. Para se ver livre dessa pesada bitributação, ele foi aconselhado a estabelecer residência na França (mais especificamente em Le Touquet, na região administrativa de Nord-Pas-de-Calais) e, com isso, pagar apenas uma fração do que vinha sendo cobrado até então. Com a iminência da invasão alemã, Wodehouse e sua família esperavam ser avisados pelos ingleses que viviam na ilha para a necessidade de fugir. Como esse aviso jamais veio, Wodehouse foi levado para um cativeiro — num acampamento próximo a Auschwitz — e, mesmo lá, manteve sua atividade criativa, embora seu humor, depois da Segunda Guerra Mundial, viesse a ser percebido como excessivamente naïf. Problema mesmo foi quando o identificaram como eventual colaboracionista do nazismo, posto que suas emissões radiofônicas aos ouvintes dos Estados Unidos e da Inglaterra foram produzidas como peças de propaganda pelos estrategistas do nazismo no contexto daquele conflito. Embora tenha se defendido, Wodehouse ficaria marcado depois da Segunda Guerra Mundial e jamais voltaria a viver na Inglaterra — morreu, em 1975, nos Estados Unidos.

Leia o texto completo aqui.

João Antônio e a literatura marginal

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Escrevi, para a edição de abril do Rascunho, um ensaio sobre a obra completa de João Antônio, escritor que foi um dos principais nomes da literatura marginal no século passado.

Abaixo, um trecho do texto:

Outro elemento que não escapa à literatura de João Antônio é a idéia de pertencimento de classe existente em seus personagens. Com isso, para o bem e para o mal, sua prosa revela personagens vivendo no limite, à margem do concreto, entre o remediado e classe média-baixa, pendendo mais para a primeira condição. Num momento em que poucas vozes das artes investem no segmento da suposta nova classe média, a classe C, é interessante observar como o escritor já concebia uma narrativa que, enfim, dava voz a uma população que, grosso modo, não é representada na literatura brasileira, como aponta o livro Literatura brasileira contemporânea: um território contestado, fruto de um estudo acadêmico assinado por Regina Dalcastagnè e publicado recentemente pela editora Horizonte. Nesse sentido, a vantagem é que a obra de João Antônio larga na frente de gerações mais recentes que tentariam elaborar uma ficção que revela o que não é dito nesses grupamentos, quer nos textos consagrados, quer nos relatos oficiais.

Leia o ensaio completo aqui